sábado, 6 de outubro de 2012



Manifestações do Crime Organizado no Brasil
“Scuderie  Le Cocq” e conexão capixaba


Milton Le Cocq foi um Detetive da Polícia do Estado do Rio de Janeiro que foi morto por obscuro marginal fluminense na década de 70. O carisma do policial assassinado, levou seus  pares à uma busca de vingança sem precedentes. O assassino do Detetive foi morto de maneira tão brutal quanto ritualística. Nascia, naquele dia, o “Esquadrão da Morte” e a “Scuderie Le Cocq”, grupos de policiais que pretenderam fazer uma justiça mais rápida e definitiva, executando marginais que eles próprios acusavam, julgavam e condenavam, sem recurso, sem defesa...
Em seu nascedouro, portanto, a “Scuderie” nem se assemelhava á crime organizado, tratando-se isto sim, de um grupo de policiais imbuídos de uma idéia de vingança á qualquer custo. Não se cabia falar em hierarquia rígida, organização empresarial, lavagem de dinheiro ou vários outros atributos essências do crime organizado. Desorganizada, a organização foi combatida com relativa facilidade pelos órgãos de repressão e perdeu força no território do Rio de Janeiro.
Em fenômeno extremamente interessante, todavia, renasceu no Espírito Santo com outra feição. Patrocinados por bicheiros capixabas, policiais reiniciaram as atividades da “Scuderie” desvirtuando-os. Em verdade, tratava-se de verdadeiro sindicato do crime acobertado e integrado pelos já mencionados bicheiros e policiais, mas ainda por políticos e empresários.
O CRIME AVANÇA - Dois juízes mortos em dez dias. O País se comove enquanto o Ministério Público Federal busca as conexões entre os assassinatos.
 A ligação entre os assassinatos dos juízes Antônio José Machado Dias, há três semanas em Presidente Prudente (SP), e Alexandre Martins de Castro Filho, na segunda-feira 24, em Vila Velha (ES) não estaria apenas na comoção pública causada pelas mortes em um curto espaço de tempo. Integrantes da missão especial que investiga o crime organizado no Espírito Santo, da qual Castro Filho fazia parte, buscam com afinco liames entre o PCC paulista, Fernandinho Beira-Mar e a Scuderie Le Cocq, grupo de extermínio de policiais civis e militares com ramificações por vários Estados brasileiros.
Integrantes qualificados da missão confirmaram a Carta Capital a existência de indícios que ligariam o coronel Walter Ferreira, apontado como mentor do assassinato de Castro Filho, e o planejamento das duas mortes. Ferreira está preso no Acre, para onde foi transferido a pedido do juiz assassinado. O coronel é acusado de liderar o braço armado do crime organizado no Espírito Santo e comandar a eliminação de inimigos e de possíveis testemunhas da ação da criminalidade.
Em público, os promotores e a Secretaria de Segurança Pública do Estado evitam se aprofundar na hipótese de conexão São Paulo – Espírito Santo. Em nome da preservação das investigações, dizem que essa vertente continua em pauta, mas teria perdido força nos últimos dias.
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Esse mesmo investigador dá pistas dos possíveis elos entre os crimes em São Paulo e no Espírito Santo. A Scuderie Le Cocq, que, segundo acusações do Ministério Público Federal, seria, no Espírito Santo, comandada por Ferreira, tem ramificações pelo País. Logo, o coronel teria canal aberto com os grupos de extermínio de policiais ao redor do Brasil.
Além disso, Fernandinho Beira-Mar não é desconhecido da criminalidade capixaba. O traficante, transferido na quinta-feira 27, do presídio de Presidente Bernardes (SP) para Maceió (AL), viveu no Espírito Santo. Beira-Mar teve 14 contas bancárias na Caixa Econômica Federal da cidade de Alfredo Chaves, na região montanhosa do Estado, e foi sócio de uma construtora em Guarapari, no litoral. O “negócio” e as contas serviriam para lavar o dinheiro do narcotráfico, conforme as investigações da Justiça.
O estilo dos crimes também seria o mesmo: três homens, cobertura de um outro grupo e tiros visando a cabeça. Imaginou-se uma conexão entre o matador capixaba preso em São Paulo e dois PMs paulistas detidos em Guarapari, mas qualquer ligação entre um e outros já está totalmente descartada.
A revelação dessa conexão, que por enquanto figura apenas no campo das hipóteses, poderia ocorrer em uma semana. O anúncio, na noite da quinta-feira 27, de que a polícia paulista havia solucionado o assassinato do juiz Antonio José Machado Dias poderá jogar luz sobre o caso.
Segundo a polícia paulista, o mandante do crime em Presidente Prudente seria Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, um dos líderes do PCC.
Marcola, o traficante conhecido como Ferrugem, e mais dois homens foram denunciados por outro traficante, Jonny, preso na quarta-feira 26.
Ferrugem teria ligações com o esquema de tráfico de Fernandinho Beira-Mar, mas a polícia paulista descarta a participação do criminoso transferido para Alagoas na execução do juiz. Participação que integrantes da missão especial no Espírito Santo ainda não descartaram.
Até o fechamento desta edição, a única convicção revelada pelas autoridades capixabas era a do envolvimento do coronel Ferreira no assassinato de Castro Filho. “Descartamos a hipótese de latrocínio (roubo seguido de morte). O assassinato do juiz Alexandre foi encomendado e tudo aponta para o coronel Walter Ferreira”, disse o secretário de Segurança Pública, Rodney Rocha.
Com Rocha concorda o presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos, Isaías Santana: “Essa morte repete a mesma engenharia das outras. Como de costume, logo aparece alguém para assumir a culpa e desviar a atenção”.
Desde o início das operações da missão especial no Espírito Santo, há cerca de sete meses, três cidadãos já foram mortos em circunstâncias misteriosas, sem contar o juiz. O primeiro, o matador Manoel Corrêa, foi executado em 21 de novembro passado na penitenciária de Cachoeiro do Itapemirim.
A execução de Corrêa até hoje está envolta em mistério. O matador de aluguel, que atuou a serviço do crime organizado e era a principal testemunha contra os crimes imputados ao coronel Ferreira, foi transferido da carceragem da Polícia Federal em Vila Velha para a penitenciária sem nenhuma comunicação legal aos juízes da Vara de Execuções Penais da capital. Duas horas depois de chegar à prisão, o matador foi assassinado. Na semana seguinte, o preso daria um novo depoimento à Justiça.
Castro Filho, o juiz morto, foi um dos primeiros a se insurgir contra a misteriosa transferência de Corrêa. O episódio provocou a exoneração dos delegados Joaquim Borges, então superintendente interino da PF no Espírito Santo, e Tito Caetano Corrêa, superintendente regional.
No dia 13 de março, Eduardo Vitor Vieira, sócio de um ferro velho na região metropolitana, e Carlos Alberto Almeida, seu funcionário, foram mortos por três homens não identificados. Luiz Carlos Freitas, outro sócio, foi baleado.
O atentado, menos de 15 dias antes da morte de Castro Filho, é apontado como queima de arquivo do caso do advogado Marcelo Denadai, executado no ano passado. No ferro velho, a PF havia encontrado um carro clonado com a arma usada no crime e que seria utilizado para despistar as investigações.
A morte de Denadai serviu de base para o pedido de intervenção federal no Estado assinado pela Ordem dos Advogados do Brasil. O pedido de intervenção provocou a saída do então ministro da Justiça Miguel Reale Jr., por conta da negativa do presidente Fernando Henrique Cardoso em encaminhar ao Supremo Tribunal Federal o pedido da OAB.
“O assassinato foi uma tentativa de intimidação. Estamos reunindo provas sólidas contra o crime organizado, eles já não conseguem se livrar da prisão com facilidade. O esquema está ruindo e todos vão cair”, afirmou a CartaCapital o subprocurador José Roberto Santoro.
 Desde o início das operações da missão especial, a vida do crime organizado no Espírito Santo realmente ficou mais difícil. O número de prisões aumentou. Além do coronel Ferreira, o ex-presidente da Assembléia Legislativa e ex-bicheiro José Carlos Gratz está atrás das grades (apesar de, no seu caso, os motivos não estarem diretamente ligados à criminalidade). Há empresários e outros policiais encarcerados.
Até bem pouco tempo, quando o crime estava entranhado no aparelho estatal, não era assim. As reviravoltas na investigação do caso do advogado Denadai revelam essa influência. O primeiro inquérito a respeito do caso relacionava uma dezena de suspeitos, entre eles empresários influentes, policiais e o principal colunista social de Vitória. Sem mais explicações, o novo inquérito elimina o nome da maior parte dos suspeitos e coloca no centro do crime o empresário Sebastião Pagotto, apontado como um personagem secundário da criminalidade capixaba.
O motivo, de acordo com a nova apuração, teria relação com a disputa por uma licitação da prefeitura de Vitória ocorrida em 2001. A pergunta: por que a morte de Denadai estaria ligada a um conflito de interesses ocorrido há quase um ano e não com o envolvimento do advogado no esquema de propinas em prefeituras do norte do Rio de Janeiro, revelado poucas semanas antes do crime?
Aos 32 anos, descrito como corajoso e destemido pelos colegas e auxiliares, o juiz Castro Filho vinha se destacando nas apurações do crime organizado capixaba. Seu estilo duro, aliás, talvez tenha facilitado a ação dos matadores. Castro Filho havia dispensado a proteção da PF, após ouvir provocações de um policial durante o evento. Em resumo, o policial teria dito que os juízes reclamavam do trabalho da PF, mas, na hora do medo, pediam proteção.
Depois do atentado no ferro velho, o governador Paulo Hartung, à revelia do juiz, deslocou um policial para acompanhar o magistrado. No dia do crime, Castro Filho saiu cedo, antes da escolta, e seguiu até uma academia de ginástica em Vila Velha. No momento exato dos disparos, estava sozinho. Segundo a perícia, o juiz chegou a disparar, sem sucesso, sua arma calibre .40, que estava de posse dos suspeitos presos poucas horas mais tarde.
Os crimes, no intervalo de menos de duas semanas, movimentaram a sociedade civil, a Justiça e o governo federal. Uma das idéias apresentadas, esta pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), propõe a criação de uma força-tarefa permanente e nacional para combater o crime. “Só assim poderemos fazer uma radiografia e saber qual a dimensão da criminalidade organizada. Se eles são grupos isolados ou se têm proporções nacionais ou mesmo internacionais”, afirma Carlos Frederico Santos, da ANPR.
Na quarta-feira 26, em depoimento no Congresso Nacional, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, anunciou um grupo de medidas para combater a escalada do crime. Fazem parte da lista a federalização do presídio do Piauí, que abrigará os criminosos mais perigosos, a construção de mais cinco prisões federais, a proteção a juízes e promotores ameaçados e o aumento do efetivo da PF. “Não podemos esperar 40 anos para combater o crime”, afirmou o ministro aos parlamentares. Até porque a guerra avança rápido e o placar pende a favor do crime organizado
.”
Pode-se afirmar que nunca antes o crime no Brasil esteve tecnicamente tão perto, daquilo que chamamos de criminalidade organizada de modelo mafioso que no Espírito Santo. O grande fluxo de lavagem de dinheiro e a organização empresarial do esquema confirmam esta afirmação, bem como a prisão do Deputado Gratz em 2002, por envolvimento no esquema,  reafirmam a magnitude desta manifestação criminosa.

Júlio Geraldo

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